Vídeo24 de agosto de 2026

Ônibus elétrico a etanol: mais barato que diesel? Fiz a conta

O Volare Attack 10 Híbrido roda até 650 km com tração elétrica e gerador a etanol embarcado. Fizemos a conta do quilômetro contra o diesel na ponta do lápis.

Ônibus elétrico a etanol: mais barato que diesel? Fiz a conta

Um ônibus elétrico que nunca viu um carregador na vida. Sem tomada, sem eletroposto, sem carregamento noturno. E mesmo assim ele roda de quinhentos a seiscentos e cinquenta quilômetros com tração cem por cento elétrica, silencioso e com torque instantâneo, reabastecendo em cinco minutos em qualquer posto do Brasil. O segredo está num líquido que a gente planta: etanol. E a empresa que fez isso não é chinesa, americana nem europeia. É de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. O veículo é o Volare Attack 10 Híbrido, da Marcopolo, que acabou de entrar em vendas.

Um gerador a etanol que nunca toca as rodas

Esqueça o híbrido do Corolla. No Volare, quem move as rodas é sempre um motor elétrico da WEG, montado no centro do chassi e ligado ao diferencial traseiro por um cardã. O etanol alimenta outro motor, um três cilindros de um litro turbo, o HR10 da Horse, de oitenta e cinco quilowatts, o mesmo do Renault Kardian. Só que esse motorzinho tem uma regra sagrada: ele jamais toca as rodas. A única função dele é girar um gerador.

Funciona assim: a central eletrônica monitora a bateria o tempo inteiro. Quando a carga cai, o motor a etanol liga sozinho, trava em torno de três mil giros, que é o ponto ótimo de eficiência, enche a bateria e desliga. O motorista não faz nada. O detalhe que resume a elegância do projeto é que o motor a combustão trabalha só cerca de um terço do tempo de uso. Dois de cada três quilômetros são silêncio absoluto. Se essa ideia de dar uma segunda vida ao álcool soa familiar, vale lembrar que muita gente já odiou o etanol como odeia o carro elétrico hoje.

Bateria pela metade, autonomia dobrada

A ficha ajuda a entender a sacada. São três pacotes de bateria somando cento e vinte e dois quilowatts-hora. Como o gerador está sempre a bordo, a bateria pode ter metade do tamanho da de um elétrico puro equivalente: metade do peso, metade do custo. O tanque leva duzentos litros de etanol, e a autonomia divulgada no lançamento subiu para quinhentos a seiscentos e cinquenta quilômetros conforme o software amadureceu. As emissões de NOx, o gás mais nocivo à saúde, caem noventa e oito por cento.

Para dar régua: o Volare elétrico puro roda de duzentos e cinquenta a duzentos e oitenta quilômetros com uma carga noturna. O híbrido a etanol dobra isso e reabastece no tempo de um cafezinho. Tecnicamente é um híbrido em série, primo do REEV, mas com uma diferença: ele dispensa recarga externa por completo, tirando energia do etanol e do freio regenerativo. Quem quiser entender melhor onde cada arquitetura se encaixa pode comparar elétrico, híbrido ou flex e ver por que a tomada nem sempre é obrigatória em como funciona a recarga.

A conta do quilômetro rodado

Agora a parte que interessa ao frotista, com as premissas na tela: diesel a sete reais, etanol a quatro reais, energia a noventa centavos o quilowatt-hora. Pela planilha oficial de licitação de transporte escolar de 2021, um micro-ônibus em estrada rural faz três quilômetros por litro de diesel. Isso dá dois reais e trinta e três por quilômetro só de combustível. Em uso rodoviário leve, com cinco a seis quilômetros por litro, cai para a faixa de um e vinte a um e quarenta.

O Volare, pelos números divulgados, faz de dois e meio a três quilômetros por litro de etanol. A quatro reais o litro, isso dá entre um e trinta e três e um e sessenta por quilômetro. Ou seja: na rota pesada, tipo escolar rural, o etanol já vence o diesel no combustível puro. Na estrada leve, empata. E aí entram as camadas que desempatam: menos manutenção, sem câmbio nem embreagem; o preço de custo do etanol para quem produz etanol, que derruba o quilômetro para a casa de um real; e a projeção com recarga noturna, que fecharia o dia perto de setenta e quatro centavos por quilômetro, menos da metade do diesel.

Por que o etanol blinda o orçamento

A vantagem vai além da bomba. O Brasil não é autossuficiente em diesel: as refinarias cobrem de setenta e cinco a oitenta por cento do consumo, e o resto vem de fora. Em 2025 foram dezessete vírgula três bilhões de litros importados, e o maior fornecedor é a Rússia, seguida dos Estados Unidos. De cada cinco litros que o frotista queima, um atravessou o oceano, com frete marítimo, dólar e até míssil no preço. Só em janeiro de 2025 as compras custaram quatro vírgula três bilhões de reais num único mês.

O etanol não tem Estreito de Ormuz, nem OPEP, nem aiatolá. O preço dele depende da safra de cana, da safra de milho e da demanda interna, tudo dentro do território nacional. Cada ônibus que troca diesel por etanol devolve esse dinheiro para a usina, para o produtor de milho, para o mecânico do interior. A troca real é essa: você troca risco de guerra por risco de safra. E entre os dois, o Brasil sabe muito bem qual administra melhor.

Compartilhar
WhatsAppX
Prefira o Radar Volt no Google