Vídeo23 de agosto de 2026

Caminhonete elétrica no Brasil: agora vai?

Os EUA cancelaram a Ford F-150 Lightning e a Ram elétrica, mas a China mostrou outra saída. Entenda se a caminhonete eletrificada vinga no Brasil.

Caminhonete elétrica no Brasil: agora vai?

Em três meses de 2025, os Estados Unidos mataram duas caminhonetes elétricas. A Ford encerrou a F-150 Lightning em 15 de dezembro, e a Stellantis havia cancelado a Ram 1500 elétrica em setembro, antes mesmo de ela chegar às lojas. Não foi falta de dinheiro nem de tecnologia. As duas empresas chegaram à mesma conclusão desconfortável, e ela explica por que a caminhonete elétrica pura parece ter batido num muro.

O problema não é a bateria, é o trabalho

A F-150 Lightning não era um carro ruim. Era a picape mais vendida da América do Norte, ganhou prêmio de carro do ano e tinha motor elétrico. Só que custava quase o dobro de uma F-150 a gasolina, e a conta parava de fechar. O problema real aparece quando a caminhonete faz o que caminhonete faz. Puxando um trailer, uma elétrica perde entre 40 e 50% da autonomia. Não é defeito, é física: o ar não se importa se o motor é elétrico ou não. Um diesel também perde, mas reabastece em cinco minutos em qualquer posto. A elétrica precisa parar meia hora num carregador que talvez nem exista na estrada onde ela trabalha.

A picape elétrica ficou boa em tudo, menos naquilo que faz alguém comprar uma picape. Nos Estados Unidos sobraram a Tesla Cybertruck, objeto de desejo, a Rivian R1T, picape de fim de semana e trilha, e a Chevrolet Silverado EV, com até 793 km no ciclo americano. Repare no que elas têm em comum: nenhuma é comprada para trabalhar. São caminhonetes de quem já tem outro carro.

A resposta veio de Shenzhen, não de Detroit

A China olhou para o mesmo problema e deu outra resposta. Não uma bateria maior, mas um motor a combustão a bordo, junto do elétrico. Parece um passo atrás e é o contrário: é a picape que roda elétrica na cidade todo dia e nunca deixa ninguém a pé na estrada. A BYD Shark 6 provou que funciona. São 436 cv, bateria de 29,6 kWh, 85 km só em elétrico no ciclo europeu e 670 km combinados. É a caminhonete eletrificada mais vendida do Brasil, está aqui desde outubro de 2024 e custa R$ 344.990. Ela é híbrida plug-in: acima de 70 km/h, o motor a gasolina também move as rodas.

Existe uma variação mais radical, com nome próprio: o EREV, o extensor de autonomia. Nele o motor a combustão nunca move a roda, só gera energia, como um gerador de obra que anda junto. A primeira caminhonete assim foi a chinesa Changan Hunter, com motor 2.0 que só faz eletricidade e 1.031 km somando tudo. Se você quer entender melhor essa lógica, vale ver o que a caminhonete híbrida faz que a diesel não pode.

Os americanos voltaram pela porta que a China abriu

E veio a virada. A Ram 1500, cujo nome sobreviveu ao cancelamento, voltou como REV em versão EREV: 656 cv e um V6 que só gera energia. A Scout, marca que a Volkswagen ressuscitou, fará o mesmo na versão Harvester. Ou seja, os americanos estão voltando para a caminhonete eletrificada pela porta que a China abriu. A ideia que eles tinham descartado virou a estratégia deles.

O que já é real no Brasil

Além da Shark à venda, a BYD Mako, menor, foi mostrada na Agrishow e tem estreia anunciada para setembro de 2026, com produção em Camaçari. A GWM fabrica a Poer em Iracemápolis, mas a Poer que está à venda hoje é diesel, não eletrificada. A Renault prepara a Niagara na Argentina, com versão híbrida plug-in no topo. Nenhuma delas é elétrica pura: todas têm um motor a combustão junto, e isso não é coincidência.

A conta que faz sentido no campo

A GWM confirmou que desenvolve uma versão eletrificada para o Brasil, sem ficha nem data. A aposta, que é opinião, é simples: se vier plug-in, vende muito. E o motivo não é a tecnologia, é quem já compra essa caminhonete. Pense na rotina de quem mora em sítio: a picape carrega pouca coisa o dia inteiro, ração, uma peça, uma volta na cerca. Carga pesada é exceção. Uma plug-in carrega na tomada da propriedade de noite e faz o dia em elétrico, e quem tem energia solar quase não paga combustível.

Os números de exemplo mostram a diferença: mil km por mês numa diesel a 9 km por litro, com o diesel a R$ 7,00, dão perto de R$ 780. A mesma rodagem em elétrico, com energia da rede a R$ 0,85 o kWh, fica perto de R$ 190, e com painel solar próprio, perto de zero. Se ela vier flex, muda de patamar, porque o motor a bordo aceitaria etanol, o combustível que o Brasil faz melhor que qualquer país. Antes de trocar, o mais útil é medir onde você recarrega: confira o mapa de eletropostos e teste seus trajetos no planejador de rotas elétricas.

No fim, a caminhonete elétrica não perdeu para o motor a combustão. Perdeu para a distância entre o que a ficha promete e o que a picape faz num dia de trabalho.

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